Cristiano Ronaldo tem recepção de herói em Hong Kong, onde Messi foi vaiado
ago 21, 2025
joice joicinha
por joice joicinha

Ovacionado do aquecimento ao apito final

O contraste não poderia ser mais direto: enquanto Lionel Messi encarou vaias e pedidos de reembolso em fevereiro de 2024, Cristiano Ronaldo saiu do túnel do Hong Kong Stadium sob um coro uníssono de “Ronaldo, Ronaldo”. Quarentão, o português assumiu o papel de atração principal na vitória do Al Nassr por 2 a 1 sobre o Al Ittihad, em jogo da Supercopa Saudita disputado na cidade. Foi daqueles jogos em que o ambiente conta muito: calor úmido, arquibancadas cheias, ingressos caros e a sensação de que todo mundo estava ali para vê-lo tocar na bola.

Desde o aquecimento, cada toque de CR7 arrancava gritos. O número 7 virou a bússola emocional da noite. A diferença para o episódio com Messi no mesmo estádio saltou aos olhos. Naquele amistoso do Inter Miami, o argentino ficou no banco por lesão e a frustração virou barulho: vaias, protestos, pedidos de estorno e, depois, um efeito dominó fora de campo.

O caso Messi não terminou no apito final. O não-jogo do campeão do mundo gerou pressão popular e culminou no cancelamento de dois amistosos da seleção argentina na China. A irritação escalou quando o camisa 10 apareceu poucos dias depois em uma partida no Japão, o que foi lido por políticos e veículos nacionalistas chineses como desfeita. O episódio feriu um mercado sensível: torcedores que investem alto para ver seus ídolos exigem presença, nem que seja por poucos minutos.

Nesse contexto, CR7 chegou a Hong Kong sabendo que seu desempenho contaria também como um gesto de reconciliação. Em campo, a história teve drama e roteiro de final feliz. O Al Nassr saiu na frente com Sadio Mané, viu o empate de Steven Bergwijn para o Al Ittihad e, minutos depois, perdeu Mané expulso após revisão do VAR aos 25 minutos. A partir daí, cada arrancada de Ronaldo virou um termômetro de esperança, mesmo com um homem a menos.

Ronaldo acumulou chances. Finalizou, brigou com os zagueiros, veio buscar jogo e foi bloqueado em momentos-chave. Mas quando a noite pedia cabeça fria, ele escolheu a decisão simples e certeira: escapou da marcação, atraiu a defesa e rolou para o compatriota João Félix concluir para as redes. Com a assistência, CR7 colocou o jogo no bolso sem precisar do gol que todo mundo queria. Liderança também é isso — fazer o time funcionar nos detalhes.

O barulho nas arquibancadas depois do gol foi ensurdecedor. E seguiu no apito final, quando três torcedores tentaram invadir o gramado para se aproximar do craque. A segurança agiu rápido e conteve as investidas. A imagem diz muito sobre a relação entre o público local e o português: é idolatria com contornos de fã-clube, daquelas que não se limitam aos 90 minutos.

Fora do estádio, a devoção virou cena de filme. Desde a chegada na quinta-feira, fãs se revezaram na porta do Regent Hong Kong, em Tsim Sha Tsui. Teve gente que bancou diária no mesmo hotel só para tentar cruzar com o ídolo no elevador. A cidade já viveu fenômenos pop, mas a presença de CR7 mistura esporte, entretenimento e negócios — e isso move um ecossistema inteiro de restaurantes, transporte, hotéis e lojinhas que vendem camisetas com o 7 nas costas.

A prova do tamanho da onda? Hong Kong inaugurou no mês passado um museu dedicado a Ronaldo. Na rápida visita, ele ouviu relatos sobre o interesse de crianças e adolescentes pela própria trajetória e, segundo a imprensa local, se emocionou. “Isso significa mais do que qualquer troféu”, teria dito na passagem pelo espaço. Emoção à parte, é um retrato fiel da conexão com a cidade.

O episódio também repõe a velha comparação com Messi, mas por um ângulo menos óbvio. Não se trata de quem é melhor com a bola, discussão interminável. É sobre entrega em mercados de alto valor para a indústria. No Leste Asiático, presença importa. Um aquecimento caprichado, 20 minutos em campo, um aceno perto da linha lateral — gestos assim viram memória afetiva. CR7 entendeu o recado e entregou.

Para a organização da Supercopa Saudita, Hong Kong foi mais que um cenário bonito. É vitrine. Levar um jogo oficial para uma metrópole global faz parte de uma estratégia clara: ampliar audiência e consolidar clubes e estrelas em novas praças. Dá trabalho, exige logística, mexe com calendário, mas, quando acontece com estádio cheio e protagonista em alta, o retorno de imagem é imediato.

Em termos esportivos, o Al Nassr sai com algo além do troféu. Sai com a mensagem de que sabe sobreviver a dificuldades — e não é pouca coisa jogar com um a menos desde a metade do primeiro tempo. O gol da virada resume a ideia: mobilidade de Ronaldo, leitura de espaço e frieza na tomada de decisão. A conexão com João Félix, novo rosto do elenco, aponta para ajustes táticos que podem render frutos nas próximas semanas.

Para o torcedor local, a noite validou um investimento sentimental que ficou abalado após o caso Messi. Quando a maior estrela em campo responde à expectativa, os laços se reconstroem. O recado para agências e promotores é cristalino: transparência sobre condições físicas, comunicação honesta e, quando possível, alguns minutos garantidos ao público. Isso evita crises que escapam do gramado para a diplomacia — como a China mostrou.

Ninguém no estádio precisava de planilha para medir impacto, mas bastava olhar em volta: camisas amarelas e azuis multiplicadas, crianças imitando o movimento de perna nas faltas, gente acompanhando as redes sociais do jogador em tempo real. Os vídeos das jogadas circularam em grupos locais e o pós-jogo sustentou a conversa até tarde da noite. Em mercados assim, uma apresentação bem-sucedida tem cauda longa.

Vale olhar também para o indivíduo além do ícone. Aos 40, Ronaldo mantém rotina de alto rendimento que ainda produz diferenças em campo. Não é só físico, é mente competitiva. Saber quando acelerar e quando soltar para o companheiro parece simples, mas exige leitura e repertório. Foi isso que decidiu a partida quando o relógio pesava e o cansaço batia.

Do ponto de vista simbólico, Hong Kong entregou ao português um palco que ele soube ocupar. A cidade, marcada por receber grandes eventos internacionais, ganhou de volta a confiança em que um jogo estrelado pode ser experiência completa — esporte, espetáculo e proximidade. Do outro lado, o atleta reafirmou um pacto com quem compra ingresso: estar presente, competir e oferecer ao menos um momento para lembrar.

O fantasma de Messi, a resposta de CR7 e o recado ao mercado asiático

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A sombra de Messi pairou sobre a noite, e isso não é um problema — é contexto. O argentino é amado em toda a região e segue no topo do imaginário do torcedor, mas a ausência em 2024 abriu uma ferida. CR7, ao aparecer, jogar e decidir, costurou essa ferida com uma atuação que conversou com a sensibilidade local. É nessa camada que a rivalidade ganha novos contornos: menos troféus, mais confiança.

Não por acaso, promotores respiraram aliviados. Patrocinadores tiveram sua exposição, a transmissão carregou um protagonista em ação e a cidade viu o turismo girar durante alguns dias. A soma desses fatores reforça por que jogos assim saem do Oriente Médio e pousam em praças como Hong Kong. Quem entrega, volta. Quem frustra, precisa de tempo para reconquistar.

Ao final, a história da noite cabe em três cenas: o coro que recepcionou CR7 no aquecimento, a assistência para João Félix no lance da virada e a tentativa de invasão de campo barrada pela segurança. Entre elas, um fio condutor: expectativa cumprida. É disso que o torcedor lembra quando guarda o ingresso na gaveta. É isso que molda a reputação de uma estrela longe de casa.

Se alguém ainda duvidava do apelo do português em 2025, o Hong Kong Stadium tratou de responder. A cidade ergueu um museu, lotou hotel, reuniu famílias inteiras no estádio e saiu com a sensação de ter visto o que esperava. Para Ronaldo, fica a certeza de que o palco asiático continua receptivo. Para o futebol global, a lição é prática: respeito ao público não entra nas estatísticas, mas decide tudo.